Às vezes não dá para esperar: uma despesa inesperada, uma oportunidade que não volta ou simplesmente a necessidade de reorganizar as contas. O empréstimo pessoal é uma das formas de crédito mais acessíveis no Brasil — sem exigir garantia de imóvel ou veículo — e, na esmagadora maioria dos casos, as parcelas são calculadas pela Tabela Price. Entender como ela funciona é o que separa quem contrata com consciência de quem se surpreende com o total pago ao final.

A Tabela Price

A característica central da Tabela Price é simples de enunciar: a parcela mensal é constante do início ao fim do contrato. Você sabe exatamente quanto vai pagar todo mês, sem variação.

O que muda — embora isso não apareça na fatura — é a composição interna de cada parcela. Nos primeiros meses, a maior parte do valor que você paga vai para os juros, e apenas uma pequena fração abate o saldo devedor. Com o passar do tempo, essa proporção se inverte: os juros cobrados diminuem (porque o saldo devedor está menor) e a parcela amortiza cada vez mais do principal.

A fórmula que determina o valor da parcela é a do valor presente de uma anuidade:

PMT = PV · i / (1 − (1+i)^(−n))

Onde:

  • PMT = valor da parcela mensal fixa
  • PV = valor do empréstimo (principal)
  • i = taxa de juros mensal (em decimal; por exemplo, 2% ao mês = 0,02)
  • n = número de parcelas

Essa fórmula garante que o saldo devedor zere exatamente na última parcela — nem antes, nem depois. A parcela PMT cobre os juros do mês e ainda amortiza um pedaço do principal, de forma que a soma de todas as amortizações ao longo das n parcelas some exatamente o valor emprestado PV.

O custo total dos juros

Conhecendo a parcela, o custo total de juros é direto:

Custo total de juros = PMT · n − PV

É a diferença entre tudo o que você vai pagar ao longo do contrato e o que de fato foi emprestado. Esse número costuma surpreender quem olha só para o valor da parcela mensal.

Há uma armadilha clássica aqui: prazos mais longos reduzem a parcela mensal, mas aumentam o custo total de juros. Isso acontece porque a dívida permanece viva por mais tempo — e os juros continuam incidindo sobre o saldo devedor a cada mês. Uma parcela mais baixa parece mais confortável no orçamento do mês, mas o preço pago ao longo de todo o contrato é maior.

O raciocínio inverso também vale: pagar em menos parcelas eleva o compromisso mensal, mas reduz o total desembolsado. Quando a situação financeira permitir, antecipar parcelas ou quitar o empréstimo antes do prazo é quase sempre uma boa decisão — como veremos adiante, isso é um direito seu.

Exemplo

Suponha um empréstimo de R$ 10.000, a ser pago em 24 parcelas mensais, com taxa de juros de 2% ao mês (0,02 em decimal):

Passo 1: calcular a parcela (PMT)

PMT = 10.000 · 0,02 / (1 − (1 + 0,02)^(−24))
PMT = 200 / (1 − (1,02)^(−24))
PMT = 200 / (1 − 0,6217)
PMT = 200 / 0,3783
PMT ≈ R$ 528,71

Você pagará R$ 528,71 todos os meses, por 24 meses.

Passo 2: calcular o custo total de juros

Total pago = 528,71 × 24 = R$ 12.689,06
Custo total de juros = 12.689,06 − 10.000 = R$ 2.689,06

Ao final do contrato, você terá devolvido os R$ 10.000 emprestados e pago mais R$ 2.689 apenas em juros — quase 27% a mais do que o valor recebido. Esses valores são estimativas educacionais calculadas com base na taxa e no prazo indicados; o custo real depende de outros encargos descritos na seção seguinte.

Para ter uma noção do impacto do prazo: se o mesmo empréstimo fosse feito em 12 parcelas, a PMT subiria para cerca de R$ 921, mas o total de juros cairia para aproximadamente R$ 1.057 — menos da metade. A parcela é maior, mas o custo total é bem menor.

Cuidados antes de contratar

Compare pelo CET, não apenas pela taxa de juros

A taxa de juros mensal informada na publicidade não é o único custo de um empréstimo. O que realmente permite comparar propostas de forma justa é o CET — Custo Efetivo Total, que reúne em uma única taxa anual todos os encargos da operação:

  • IOF (Imposto sobre Operações Financeiras): obrigatório por lei, varia com o prazo e o valor;
  • Tarifas de cadastro ou de abertura de crédito, quando cobradas;
  • Seguros vinculados ao contrato (prestamista, por exemplo), que nem sempre são obrigatórios — vale questionar;
  • Quaisquer outros custos administrativos.

Uma proposta com taxa mensal ligeiramente menor pode ter um CET mais alto do que outra por causa do IOF e das tarifas embutidas. O banco é obrigado por lei a informar o CET antes da assinatura. Peça esse número por escrito, em taxa anual, e use-o para comparar instituições.

Amortização antecipada reduz os juros — e é seu direito

O Código de Defesa do Consumidor garante ao tomador o direito de quitar ou amortizar antecipadamente qualquer dívida, com redução proporcional dos juros futuros. Na prática, se você pagar parcelas adiantadas ou quitar o empréstimo antes do prazo, paga menos juros do que o contrato originalmente previa.

Antes de fazer uma amortização extra, verifique com a instituição se há taxa de liquidação antecipada (algumas cobram, outras não) e solicite um demonstrativo do saldo devedor atualizado. Mesmo que haja uma taxa pontual, a economia nos juros futuros costuma superar o custo.

Crédito consignado: quando faz sentido

Se você é servidor público, aposentado ou pensionista do INSS, o crédito consignado merece atenção antes do empréstimo pessoal convencional. Por ter as parcelas descontadas diretamente da folha ou do benefício, o risco de inadimplência é muito menor para a instituição financeira — e isso se traduz em taxas de juros significativamente menores, muitas vezes menos da metade do que as praticadas no empréstimo pessoal comum.

Para trabalhadores do setor privado com carteira assinada, o consignado privado também existe, mas com taxas que variam mais. Vale pesquisar. Se o consignado não for uma opção, compare as propostas de pelo menos três instituições pelo CET antes de assinar.


Para calcular a parcela e o custo total de juros do seu próprio empréstimo com os valores que você está avaliando, use o simulador de empréstimo pessoal. Se quiser entender como a Tabela Price se compara com o sistema SAC — usado em financiamentos imobiliários e, às vezes, em empréstimos de maior valor —, confira o artigo SAC vs Tabela Price.